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BRASIL, Mulher, de 20 a 25 anos



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    Sentir falta do passado

     

    Tudo começou com um substantivo próprio ouvido num fim de tarde, da boca de minha supervisora. Quem diria que um nome reativaria tantas lembranças? Um nome não tão comum, não tão incomum, que me fez pensar se tínhamos a mesma pessoa como referência.

    De repente, em 8 minutos de caminhada, um percurso trabalho-casa transformou uma floresta em um incêndio. Engraçado como memórias que não ressurgiam há anos vieram à tona. Não eram memórias de momentos marcantes da vida, mas já tinham acontecido há quase 10 anos. Ou, quem sabe, tenham sido vivificadas justamente porque há 10 anos eram fatos marcantes, porque a importância dos acontecimentos era construída por um outro eu. Os fatos marcantes de hoje são um acúmulo de tudo que aconteceu de dez anos para cá e dos outros que já tinham sido vividos anteriormente.

    Tenho pensado muito no passado enquanto vivo agora. Penso em como é triste que uma pessoa que é vista com frequência tenha se tornado uma memória e em por que a gente deixa que isto aconteça. Alguns intervirão dizendo que “é simplesmente a vida”.  E quem dera fosse simples... quando reencontro alguém que foi tão importante no piscar de olhos da minha existência, começo a tentar tecer uma justificativa para o que quer que tenha acontecido com aquele amigo, cujo abraço era sempre inesperado e bom, com aquela amiga que me visitava em todos os aniversários e finais de ano, com aquele garoto que andava de modo engraçado e que decidira que gostava de mim.

    E sentimos falta do passado? É inevitável sentir algum tipo de nostalgia, ou rancor, ou alegria ou ainda, qualquer outro sentimento que as memórias de hoje tenham construído para o que ficou para trás, há 10 anos, há dois anos, ontem.  Também é comum a sensação daquilo que poderia ter sido melhor aproveitado, expressado, observado ou resolvido. A questão é que nada é pleno e fechado, afinal existe o amanhã e tudo vai se modificar. Um piscar de olhos diante da história, uma vida inteira.


     



    Escrito por Alguém perambulando... às 19h20
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    O choque da [falta de] expectativa

     

    Já estou bem acostumada. A cada coisa nova, um forno de expectativa. Na verdade, não importa o que seja, é sempre aquela mesma sensação. Ou não. Será que as grandes expectativas continuam após tantos e tantos anos? Eu podia dar alguns exemplos, mas poupo as linhas. Ao menos para mim é muito fácil pensar em alguém que não tem mais expectativas.

    Acredito que essa é uma das dores mais fortes que alguém pode sentir. Não importa a idade. É fácil não ter tantas expectativas sobre um filme, mas como fica quando é a própria pessoa se vendo no espelho?

    Não alimentar essas sementes [ou ervas daninhas, cabe a você decidir] não é como abrir uma garrafa de refrigerante, está realmente mais para uma analogia com a agricultura.

    ---

    Por uma obra terrena, nós também convivemos com a falta de expectativa positiva, ou melhor, não damos uma brechinha para a expectativa – e terminamos por sentir uma indescritível surpresa. Foi o que aconteceu há pouco quando assisti Blue Valentine. Não sei se pelas traduções pobres dadas aos títulos de filme ou se por, simplesmente, haver um casal, a expectativa que eu tinha era de mais um filme romantiquinho. Sem ter me informado, me surpreendi com a própria história da expectativa que o filme traz, das personagens, nossas. A surpresa que tive foi rica por trazer exatamente o que eu vinha pensando tanto: o que é que há quando não há expectativa? Além do desespero, é claro. 

    Às vezes é difícil dar nome às coisas, mas isso é o que, provavelmente, eu chamaria de desesperança.

    E, por mais contraditório que pareça e por mais frágeis e descartáveis que sejam as trilhas, fiquei desejando que você tenha mesmo expectativas, sempre.

    http://www.videolog.tv/video.php?id=690214

    [trechinho do filme, cheio de expectativa]


     



    Escrito por Alguém perambulando... às 10h08
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    Identidades múltiplas

    Uma simples terça-feira em um mês de março de um ano qualquer.
    Começar o dia sem querer se levantar, tomar café, ir à faculdade. Sim, vida de universitária. Então, das 8 às 12 cumpro meu papel: sou aluna. Entre um intervalo e uma hesitação do professor para lembrar algo que lhe aconteceu, me identifico como amiga. Na hora de entregar um formulário, sou mais uma candidata de tantos.
    Volto para casa e sou moradora, tiro o lixo, varro a cozinha. Na hora de cozinhar, meu papel é o de alguém que cozinha por gostar, mas que definitivamente não é cozinheira.
    Mais alguns momentos em casa e assumo o papel de pesquisadora, escrevendo sobre minhas atividades em campo. Ao me dirigir à faculdade, sou somente uma pedestre, mais uma na multidão.
    Ao acessar um grupo de e-mails, sou outra pessoa. Alguém que talvez as pessoas nem saiba mquem é, embora meu nome esteja lá.
    Estamos no meio da tarde, mas agora é hora de cumprir o meu papel de professora assistente. Mais uma identidade que confronta outras. Na hora de me reportar à chefe, sou somente uma subordinada, enquanto na hora de discutir um trabalho em grupo, sou mais um membro, mais uma parte do todo que muda constantemente.
    Ao chegar em casa, quase não há tempo para comer ou estudar. É hora de ser babá. Nessas horas, por vezes, sou também amiga; às vezes, mãe. Entre uma figurinha colada, uma criança com nariz sangrando e outra dizendo a mancha foi feita com canetinha e um quebra-cabeça, é hora de criança dormir e de adulto cuidar da vida. E adulta, sozinha, volto a ser estudante, uma das milhares de identidades.



    Escrito por Alguém perambulando... às 15h11
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    Longínquamente perto..

    Lá vou eu tentar escrever aqui e depois passar um mês sem postar nada. Na verdade, enquanto escrevo, penso em pelo menos dois outros textos que já escrevi há semanas e que deveriam ter sido postados – eles virão, talvez depois desse post. Minha ideia era manter uma espécie de diário enquanto viajava, mas isso foi arrebatado pelo fato de o meu intercâmbio durar seis semanas e eu não ser disciplinada o suficiente para escrever no papel, passar pro PC, postar e editar.


    Enfim, mais uma vez, cá estou. Oras, no Brasil. Enquanto alguns colegas achavam que eu ficava lá pra sempre ou por um longo, longo tempo, alguns amigos me mandavam mensagens falando sobre como o tempo passava rápido e que, mesmo assim, já estava na hora de voltar.
    Descontando o intercâmbio e dezembro  - que foi um mês turbulento demais e no qual coisas do intercâmbio e da faculdade ainda deveriam ser resolvidas – tive uma semana de férias e fiquei essa uma semana na minha cidade.


    O que é mais estranho, ao voltar após quase dois meses, não são as diferenças da vida lá e aqui, que obviamente são muitas. Para mim, o que choca mais é como as coisas continuam iguais, como as pessoas continuam reagindo da mesma maneira, seja pelo lado bom ou pelo ruim. É claro que eu não esperava uma mudança, afinal, estou falando de jeito de ser, comportamento e tudo mais. Mas é que é nítida a minha mudança, seja tolerando comentários, provando pratos desconhecidos, conhecendo gente nova, enfrentando dificuldades. Diante de tudo diferente – mas igual – quando cheguei aqui, achei que minhas vivências se estenderiam aos que me cercam, que poderia compartilhar e fazê-los perceber que certas briguinhas sem sentido não fazem mais sentido após tantos meses da mesma porcaria e que vale muito mais a pena tentar entender o que é que há, qual é o cerne da briguinha que dura tanto tempo.


    Eu sei lá. Nesses momentos me sinto muito pequena, porque tudo que faço tem um impacto muito pequeno, mesmo na vida dos meus amigos e familiares. E não precisa ser uma viagem para o exterior para fazer alguém perceber isso, pode ser uma viagem pro seu próprio interior. Quando a gente pensa que está inspirando ou dando novas idéias aos mais velhos, muitas vezes o que fazemos é simplesmente deixar ainda mais arraigado uma ideia errada que eles tinham. Às vezes, uma tarde sentado embaixo de uma árvore basta para que percebamos coisas, mas tentar convencer mais alguém de que só isso basta pode ser muito difícil.
    Para mim, o intercâmbio provoca distanciamento; só que quando chego aqui novamente, os fatos caem como as gotas de chuva num temporal. A verdade está aqui, como estava antes, nada mudou, eu (me) mudei, ainda existe uma tentativa desesperada de entender o que já está encerrado e continua.



    Escrito por Alguém perambulando... às 09h47
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    A Alemanha continua me surpreendendo de várias maneiras. Eu já falei dos cães e seus donos nos mais diversos lugares e queria apontar mais algumas pequenas coisas, como o fato de haver comida pronta que vem em caixa e não é vendida na parte dos refrigerados, nem nada. Simplesmente fica lá e quando tirada da caixa, está em boas condições, só devendo ser esquentada.

    Outro ponto bastante interessante é a grande quantidade de estrangeiros que domina o lugar. Não é raro ouvir turco, espanhol ou russo pelas ruas – ou ainda, ouvir alguma espécie de inglês praticamente ininteligível. Não raro as pessoas também fazem perguntas em um alemão muito esquisito, o que as condena e faz aparecer "Gringo" nas suas testas.

    Por fim, o episódio mais surpreendente da minha pequena estabilidade cultural brasileira aconteceu no mercado – adoro visitar mercados de outros países, caso não tenham percebido ainda.

    Após comprar uma parte do almoço, maionese, um pacote de cookies e algumas outras porcarias, cheguei ao caixa e o montante a ser pago era em torno de 4,81 euros.  Para facilitar, dei uma nota de 5 e corri para guardar as compras, porque aqui guardar as compras é algo sagrado e que deve ser feito o mais rápido possível antes que a atendente do caixa e o próximo cliente comecem a te olhar com cara feia. Para o meu indescritível espanto, a atendente me fez um pedido que pareceu tão sem sentido para o meu alemão meio fajuto que fui obrigada a repetir “Wie bitte?”. Então, ela repetiu: “Você não tem uma moeda de um cent para facilitar o troco?” e eu continuei com cara de boba, “ou talvez 11 cents?”. Lá fui eu procurar um cent no porta-moedas e fazer a atendente mais feliz ao receber em mãos a moedinha.

    Com o troco dado, as compras amassadas na mochila e um bombom Kinder Ovo, voltei para casa.


     



    Escrito por Alguém perambulando... às 20h06
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    Alemanha - Düsseldorf

    Uma semana em Düsseldorf e, mais uma vez, fica fácil perceber como muita coisa é diferente. Como alguns sabem, o meu motivo de viagem é o estudo e a minha primeira semana foi, basicamente, para resolver todas as burocracias relacionadas às aulas, a como chegar nas aulas enfrentando a chuva maluca que insiste em cair todos os dias desde que cheguei e enfrentar o fato de que, sim, o dia parece passar muito mais rápido aqui – considerando que amanhece por volta das oito e meia e escurece por volta das quatro.Ao contrário do que eu esperava, o inverno tem sido muito ameno e nenhuma vez houve temperatura negativa. Não tenho olhado muito as previsões, mas acredito que a média de temperatura tem sido uns 5ºC, o que me faz largar muitas roupas sem serem usadas.

    [A tarde em D-dorf)

    Depois dessa primeira semana, fiquei sabendo que a rua em que as pessoas fazem compra é realmente gigantesca – Königsallee, se vocês tiverem vontade de saber – e que muita gente rica mora aqui. Ricos, em geral, mesmo. Também nunca havia visto tantos cachorros levados em coleiras, seja na rua, dentro das lojas de grife ou da padaria(!), houve inclusive menções dos próprios professores com quem tenho tido aula que isso é algo comum para as dondocas de D-Dorf. Por falar em padaria, soube também que há uma padaria para cães na parte velha da cidade e passei por lá; é dispensável dizer que certamente um biscoitinho para o cachorro deve ser mais caro do que o pão de forma de 0,49 cents que comprei para o café da manhã.

    Outra coisa que foi fenomenal foi uma tempestade de manhã – sim, no horário de ir para aula. Eu, com meu guarda-chuva brasileiro, colorido e com desenho de praia, fui até a porta do prédio e vi que havia placas de gelo no chão e que o vento levantava tudo que era possível, além da chuva parecer levar tudo que era possível. Discutindo sobre a possibilidade de a chuva ser um bom motivo para não ir à aula, acabamos nos aventurando nesse... dilúvio. Ainda na rua de casa, meu pobre guarda-chuva brasileiro, que na verdade, era da minha mãe, foi sendo destruído aos poucos, embora rapidamente e, eu me vi correndo, com uma mão no pano do guarda-chuva, tentando bobamente me proteger da chuva e outra tentando segurar o dito cujo, que virava no avesso e queria sair voando. Chegando na escola, encharcada dos pés à cabeça, com um casaco que não era impermeável, descobri que, de fato, não era um motivo racional para falta: todos os alunos tinham comparecido.

    [guarda-chuva brasileiro pós-chuva alemã]

    Outra coisa que ainda me espanta é o preço, ou melhor, o euro. Segundo um amigo meu, “quem converte, não se diverte”. Por isso, não tenho me divertido tanto assim, embora meus gastos, até agora, tenham sido com comida, transporte, um casaco – não queria mais me molhar – e algumas atividades da escola. O que fica bastante nítido é que comer em casa é muito mais barato do que na rua – um pacote de macarrão Barilla, que pode vir a custar mais de cinco reais, aqui custa uns 60 cents -, ainda que eu tenha a possibilidade de comer no bandejão da universidade, que sim, merece um outro post. Todo mundo tem falado que converter não é possível, é como se 1 real tivesse que ser um euro, porque esse é o estilo de vida das pessoas que moram aqui, seria mais ou menos como discutir qual é a margem da pobreza na Alemanha e qual é a do Brasil.

    O texto já ficou meio grandinho, então mais impressões vêm em breve.



    Escrito por Alguém perambulando... às 17h45
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    Retrospectiva[?] 2011

    Aqui estou eu, em mais um final de ano, ainda postando no blog.

    Para começar a retrospectiva desse ano muito maluco, enquanto no último post do ano passado eu falava sobre coisas que me inspirariam, da falta de saber o que fazer pós-término de faculdade e da minha primeira viagem internacional, o ano que termina agora tem um acúmulo de funções e viagens que eu nunca imaginaria: cerca de quatro ou cinco empregos, boa parte deles mantida ao mesmo tempo e a fronteira de dez países foi cruzada ( considerando que estive em 9 países em 20 dias).

    Nada disso eu imaginava em dezembro de 2010.

    O que se encerra agora foi um ano de descoberta, de provocação, de se perguntar a todo momento o que é que valia a pena. Muitas perguntas continuam em pé, mas considerando tudo que aconteceu, parece muita coisa em tão pouco tempo. Não enumerarei nada aqui, entretanto pensei a todo momento que o blog ficava desamparado. O ano foi tão anormal que o espaçamento entre uma escrita e outra foi se tornando gigante e não consegui mantê-lo, um pouco porque não queria a obrigação de ter que escrever e, muito, porque percebi que isso tinha se tornado uma obrigação, quando eu fazia antes por prazer.

    A ideia principal, que não sei se conseguirei cumprir, é ter uma vida que não beire a loucura e o colapso nervoso, dois sintomas presentes neste final de ano.  Acredito que, desse modo, talvez tudo comece a se encaminhar e o desejo de escrever esteja presente e seja concretizado – muitas foram as chances que perdi ao não escrever sobre determinado fato.

    Amanhã parto para mais uma aventura fora do país, minha primeira bolsa de estudos. O país, a Alemanha, já teve sua fronteira cruzada em julho, mas agora são 6 semanas, espero, de muito aprendizado, diversão e novos conhecimentos (em alemão, bitte!)

    [e que venha o fim do mundo!]



    Escrito por Alguém perambulando... às 09h25
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    Escrito numa segunda, postado numa quarta.

    Segunda-feira costuma ser aquele dia que ninguém quer muito viver por ser sempre o início da semana de trabalho/estudo/[insira o que quiser], o que por si só deveria envolver alguma contradição para a receita da felicidade, mas esse não é o assunto de hoje.


    A segunda-feira geralmente  começa sempre do mesmo jeito e, tirando mais uma noite de insônia que começou no domingo e gerou um amanhecer já acordada, tudo começou da mesma maneira: acordar, tomar café, vestir-se, sair para o trabalho. Ah, o sol também estava anormalmente quente.
    Foi então que tudo começou a acontecer. A segunda-feira teve conversas inesperadas com pessoas em cargos superiores, conversas simples, coisas banais, mas senti que eu andava precisando disso. Não é porque é segunda-feira que a gente não precisa conversar, não é? Então uma conversa banal pode ser importante para o seu dia, você pensa. Pois é, uma conversa banal numa segunda-feira que provavelmente estará esquecida já na hora do almoço de terça.
    Mais tarde, você percebeu que a segunda-feira era de botar o papo em dia, mesmo que houvesse somente 20 minutos, e a conversa fosse pelo computador. Eu também precisava disso. Jogar pro ar aquilo que me perturbava [e ainda perturba].


    A tarde da segunda-feira tinha gosto de despedida e incluía muitas imagens, desde avião até crianças que talvez nem se lembrassem de mim no ano seguinte. Despedidas são sempre esquisitas, principalmente quando talvez não exista o ‘até logo’, mesmo que sejam de pessoas não muito próximas.  Era uma partida na segunda-feira, no primeiro dia de trabalho, de estudo, ____ (insira o que você quiser) da semana.


    E quem diria que a minha segunda-feira incluiria ainda um tarado em pleno meio da tarde. No meio daquela tarde quente, um trabalhador recém-saído de sua empresa resolveu brincar com seu aparelho em plena via pública, quando há 2 metros dele estava uma família. Foi então que nessa segunda-feira você começou a pensar na sua segurança, não só para a segunda-feira, mas para todos os dias. Se um sujeito desses está por aí exibindo o que ele[acha que] tem bem no meio da tarde, perguntei-me o que mais ele fazia. Por mim, poderia andar nu, que importa? Mas o que será que ele andava fazendo em outras segundas? Ou terças? Ou sábados? Será que só mostrar era suficiente?


    Por fim, minha segunda se transformou num caos em plena rodovia, quando, já esquecida de muitos acontecimentos da segunda-feira, em minha mente se encheu a beleza de ver o céu claro e iluminado pelo sol do meu lado esquerdo, enquanto a chuva mais torrencial que vi nas últimas semanas caía em uma só direção, sem que nada fosse enxergado através dos para-brisas de quem estava na direção, naquele fim de tarde do primeira dia da semana que começava. Fiquei pensando o que mais aconteceria para se misturar àquela minha ânsia de abandono, raiva, tristeza, maravilhamento, descaso, incompreensão. Talvez estivesse apressada demais. Afinal, ainda era segunda-feira...



    Escrito por Alguém perambulando... às 08h54
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    O Ano Novo

    [Não, você não está adiantado demais]

    Passou 20 anos tendo uma passagem de ano muito normal, em casa, sem festejar, vendo os fogos de artifício em lugares que nunca esteve, na tevê. Às vezes via na rua, porque havia um clube que ficava perto de sua casa. Sempre desligando a campainha e a luz da sala para que as crianças não vissem que havia alguém em casa e pedissem “Bom princípio”. Alguns desses anos também passou dormindo, de mau humor ou bom humor,  sempre a mesma coisa, mentira.

    De repente, no vigésimo primeiro ano passou o ano em casa. É. De novo. Mas tudo seria diferente no primeiro dia do ano, embarcaria em um vôo de 15 horas e ficaria presa parte de um dia e uma noite toda em um país cuja língua não falava.

    Então, na iminência do vigésimo segundo ano novo descobriu que passaria o Reveillon dentro do avião, ou seja, uma virada do ano seria no ar. Por causa disso, seus pensamentos revolvidos a guiaram através do que aconteceria em tal situação. Sem saber bem qual é o horário, no meio do oceano, que horas comemorar a tão esperada passagem de ano? Comemorar com mais uma ou duas ou três pessoas ao seu lado ou com toda a fileira do avião? Enquanto isso, provavelmente  um cara dorme, o outro vê um filme e  uma criancinha se diverte com o controle da tevê? Será que há algum menu especial? Champagne francês da melhor qualidade? Será que melhor comemorar no horário do país do qual ela saiu ou no horário do país para o qual estará indo, que é só o país da conexão?

    Por um segundo, imagina todas pessoas se levantando e querendo felicitar os que estão ao redor, comemorando, imagina ouvir também o barulho fatídico do “estamos passando por uma turbulência, apertem s seus cintos” soando em meio a pessoas querendo dizer “Feliz Ano Novo” para um desconhecido; já outras amaldiçoam o fato de terem escolhido o tal vôo que estaria no ar quando o ano fosse de 2011 para 2012.

     Lá no meio de todas essas pessoas, provavelmente estará lá, contanto que não perca o vôo, sentindo-se deslocada em meio à enigmática passagem de ano, bastante inesperada, seja como for, só por não estar em casa. De qualquer maneira, estará, como boa parte das pessoas, se perguntando o que é que o ano bissexto lhe trará, sem acreditar muito no fim do mundo, desde que a viagem aérea não se prolongue muito. Pensará ainda nos próximos dois meses que vai viver bem longe de casa e nos outros dez em que estará tentando entender o que é que está havendo em sua vida.




    Escrito por Alguém perambulando... às 23h40
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    Expectativas? Me vê uma, por favor... to atrasada.

     

    Não importa quantas vezes eu diga que não crio expectativa. Não sei se o ditado que diz que mente vazia é oficina do diabo procede, mas tudo que não havia existido até agora passou a ser.

    E aí a gente pensa, será que é tão ruim assim? [ó lá, criando expectativa de esperar?]

    Se não criássemos em nossa mente tudo que queremos ser, o que é que haveria? Fico aqui pensando que não muita coisa.

    O próprio ser humano desconstrói o sentido de ter esperança e planejar? É ele mesmo que ferra com a expectativa de um outro ser humano.

    Só que mesmo cansados de tentar, lá vamos nós de novo.

     



    Escrito por Alguém perambulando... às 21h45
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    "'Everything changes, but nothing is truly lost.'" ~ Dream ("The Wake")

    Uh, já faz tempo.

    Venho aqui depois de mais um período de seca e em que praticamente mais um semestre [ao menos o que chamamos de semestre acadêmico] acabou. Não sei bem o que houve, meu aniversário passou, não parece que muita coisa mudou, porque é como se eu me sentisse a mesma desde fevereiro [o aniversário foi em maio]. Mas essa ‘mesmice’ – e não é que o sufixo –ice é realmente pra representar algo ruim –às vezes parece muito com uma instabilidade colossal.

    Demorei algum tempo para tomar várias das decisões que tenho muito bem estabelecidas agora, mas muitas delas não parecem ter saído do lugar, embora tenham entrado no que poderíamos chamar de milk-shake cerebral, o que pode ser interessante – apesar da idéia de milk-shake largado no copo por uns três dias não me agradar muito.

    O meu aniversário de 22 veio como uma bala e tirando um momento desde então – no qual me perguntaram a minha idade e eu falei errado -, praticamente nem lembrei que ele existiu, porque de um mês pra cá não muito mudou. É claro que eu não esperava mudança, porque eu cuidei de todas elas no decorrer dessa semestre: arranjei dois estágios, finalmente entrei em uma sala de aula, arranjei um bico, me inscrevi para algumas coisas, participei de outras, acreditei em algumazinhas. Não vou citar mais, porque acredito ser melhor não antecipar coisas das quais não se tem certeza.

    O ‘finalmente’ ali de cima é como se eu estivesse esperando por isso. Acho que não estava, mas fiquei surpresa. É cativante a minha capacidade de ainda me surpreender com algumas das minhas próprias escolhas, principalmente da revolta adormecida que ressurge forte.

    Por mais que muita coisa na minha vida toda tenha mudado, muito ainda continua igual.

    E muita coisa mudou tanto que parece que ficou escondidinha numa minúscula caixa em que as sinapses não chegam mais...

    A minha essência sempre continua a mesma, mas tudo que decorre dela e das experiências que vivo por aqui vai se transformando. A minha mesmice vai se tornando variedade, girando, girando, trazendo de tudo um pouco.




    Escrito por Alguém perambulando... às 23h19
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    Crianças

    Meu dia hoje foi repleto de crianças. De indagações. De prontidão para fazer aquilo que eu mandasse. De revolta por ter de fazer aquilo que eu mandasse.
    Iniciei meu segundo estágio do semestre numa escola de japonês, mas, não é hoje que falarei dessa experiência. Ao chegar na minha casa, às vezes brinco com as filhas do dono da casa – explicando, eu moro nos fundos de uma casa de uma família chinesa-, mas devido a dois estágios, um bico e a faculdade, acabei ficando meio sumida até da minha própria casa, que só recebe minha presença por ter uma cama.
    Voltando ao assunto, eu passei quatro horas com crianças, primeiro japonesas, numa hierarquia explícita de “professora” e, depois, com crianças chinesas, numa hierarquia meio nebulosa que se estabelece somente pelo fato de eu saber ler e escrever. E só. E isso me encanta de um modo muito particular – assim como falarei de um outro encantamento causado pela escola de japonês, e outro momento.
    Tirando a hierarquia ler-escrever, o que me sobra é ficar escolhendo as minhas preferências por todo o tempo: qual princesa eu gosto mais, qual cor, qual menininha desenhada no caderno, qual lápis de cor, Hello Kitty ou Barbie. E como é difícil fazer uma menina no auge dos sete anos acreditar que Harry Potter não é coisa de menino.
    Entre uma letra ‘a’ e uma tentativa frustrada de escrever ‘sorvete’ – que causa muita, muita revolta numa criança, principalmente quando você não quer soletrar as letras, mas sim que ela perceba que as sílabas e os sons têm alguma correspondência no nosso louco português. Ha! Vai dizer que não é coisa de lingüista achar a coisa mais linda do mundo uma menininha ter escrito “SVET” no lugar de “SORVETE” –, ela teve a idéia de fazer uma carta para mim. O interessante disso tudo é que a carta era, na verdade, um envelope, já que ela queria fazer um envelope e colori-lo e nem tinha pensado o que é que carta realmente significava.
    - O que que você vai colocar dentro desse envelope?
    Ela olhou pra mim com uma cara de não-sei-não, enquanto pedia que eu escolhesse quatro cores diferentes para que pintasse o envelope.
    Enquanto ela pintava, a irmã menor veio chamá-la para ir embora, pois já era muito tarde. Como ainda faltava pintar um quarto do envelope, falei:
    - Ei, termina de pintar e depois você me dá a carta, tá? Quero só ver o que você vai colocar dentro.
    - Então eu termino em casa e depois coloco ali – apontando para o vão debaixo da porta do meu quarto e fazendo isso parecer uma promessa.
    Elas foram embora e eu me perguntava quantos milhões de coisas teria que resolver no dia seguinte e já preparava uma lista de afazeres – sim, problemas de memória- quando ouvi um barulho embaixo da porta e vi que a minha carta tinha sido entregue.
    Percebi que havia alguém ansioso do outro lado, mas não me movi. O tempo meio que parou, enquanto eu esperava e também sentia a espera e a expectativa. Cinco segundos. Dez segundos. Uma batidinha de leve na porta, ao que eu respondi “Peraí” e guardei minhas coisas no armário. Ao abrir a porta, ninguém. Minha carta continuava lá. Pintada com giz de cera, havia verde, laranja, rosa e um verde-rosa, causado pela falta de ponta do lápis verde. Dentro, havia uma folha de fichário, dobrada em três. De ponta cabeça estavam três corações de uma menina de sete anos, um embaixo do outro e centralizados na folha, feitos também a giz de cera rosa, só com o contorno. Embaixo do segundo coração, estava o nome dela.



    Escrito por Alguém perambulando... às 17h28
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    Passagem

    Agarre-se às pedras ainda frias,
    brinca com seus dedos delicados.
    Espectadora do que foi e começou
    atriz fantoche de cada segundo,
    um transe.
    E os pássaros a despertam.

    Marca a ferro, sua
    pele na qual reflete o estigma
    capturado pela mistura azul
    e branca,
    um caderno de desenho
    contemplado por muitos verões.

    Estragada pelo toque, o olhar e sua falta.
    Não reconhece suas tatuagens
    e o inferno se tornando fresco.
    Partida.
    Pontos. Cargas gastas.
    Cadernos monstros
    iluminados na sua escuridão.

    Já é madrugada.
    A mesma criança ou a mesma velha?
    Numa hora qualquer, só
    inscrito, escrito, cravado, gravado.
    Mais um dia.



    Escrito por Alguém perambulando... às 12h16
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    Bizarrices culinárias da Ucrânia - parte II

    Por incrível que pareça e, não achei uma boa solução para isso, o chocolate em pó é mais barato que o achocolatado [Nesquik], mas vale ressaltar que há algumas marcas fajutas que também sirvam ao propósito. E Nesquik só tem sabor chocolate... :(: (
    Tem um fast food da Armênia, muito popular lá, que vende um tipo de lanche feito com pão sírio chamado shaurma. Apesar de não ser ucraniano, foi, de longe, a comida que mais gostei durante toda a minha estadia. Ele lembra um pouco o churrasco grego, o lanche era gigantesco e custava, convertendo a moeda, cerca de 3,50.

    Os doces não me surpreenderam muito, tirando o fato de que pão doce lá só tem doce em cima e não tem recheio nenhum, também [deve haver algum problema com o conceito “recheio”]. Comi, também, o doce abaixo, mas nem lembro o nome. Existe pra vender em qualquer mercadinho e tem um gosto que lembra amendoim e... areia[?]. É esquisito, bem esquisito, mas valeu a pena experimentar.

    Por fim, quero dizer que lá não tem suco de maçã vermelha, nem de uva roxa, mas sim de maçã verde e de uva verde. Ah, também tem suco de romã. Sim, de romã! E era um negócio divino, o melhor suco que já tomei.
    Chega de falar de comida...



    Escrito por Alguém perambulando... às 11h37
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    Bizarrices culinárias da Ucrânia - parte 1

    Este é um texto que já deveria ter sido escrito na semana que cheguei da Ucrânia, mas por motivos relacionados a tudo dar errado na volta à vida normal e ao encontro das fotos, só estou pensando na culinária ucraniana hoje.
    Vou escrever sobre produtos que se mostraram ligeiramente diferentes dos que temos aqui. Por exemplo, batata chips. Não que esperasse encontrar batata sabor “churrasco” lá, mas também não esperava encontrar sabor creme azedo e ervas. Creme azedo é um produto que eles usam bastante, colocam em sopa [no Borsch, por exemplo] e também no Varenyky, que é uma espécie de pastel/capeletti cozido, sem molho algum, como é possível ver na imagem abaixo.

    Aí eles misturam o creme azedo com o pastel e comem. Ou misturam ketchup, ou maionese. Outra coisa que me impressionou é a grande variedade de ketchup que existe lá, já que eles vêm em embalagens iguais as de molho de tomate, vendidas no Brasil. Mesmo não estando familiarizada com a língua, existia, no mínimo, uns quatro tipos de ketchup.
    Agora vamos falar sobre mais porcarias comestíveis. Fiquei abismada com a bolacha recheada. Não sei se comprei uma marca ruim [lá tem bolacha Oreo e é a única marca “onhecida”], mas a imagem abaixo é a de uma bolacha recheada:


    Aí me perguntei onde estava o recheio. Poxa! Cadê o recheio? Aí abri a bolacha e achei o recheio:


    Ain, tão pouquinho. Parece que sujaram a bolacha e colocaram para vender. Um treco louco pra caramba.
    Vamos falar de mais um sabor de salgadinho exótico agora, sabor “cogumelo”. Acho que já falei que a base da alimentação aqui é a batata e o cogumelo. Eu comi o tal do Varenyky com recheio de batata e cogumelo, comi um tipo de salgado com recheio [e, de novo, me perguntei, “cadê o recheio?”] de batata e cogumelo e outras coisas mais, sempre com batata e cogumelo. Fui a restaurantes ucranianos e pude escolher entre duas variedades de cogumelo e muitos tipos de preparo de batata. Portanto, quando vi o salgadinho sabor “cogumelo” achei bem... comum. Mais comum que, por exemplo, a pipoca sabor “cerveja” [sem brincadeira!]. Por falar em pipoca, não existe milho para fazer pipoca, só pequenas embalagens que já vêm com a pipoca pronta.



    Escrito por Alguém perambulando... às 09h29
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