

BRASIL, Mulher, Livros, Cinema e vídeo
Sentindo que estou dentro de um daqueles cilindros enormes de construção. Sentada e oca, sem saber o porquê.
[também conhecido como “Mais uma reclamação de quem vos escreve”]
Eu tenho o péssimo hábito de encarar tudo como ruína, antes até da coisa acontecer. Mas é quieto e contínuo o processo de apartamento, a ponto de algumas vezes não se ver e, de outras, de se deixar acontecer, cabisbaixo ou com um sorriso falso no rosto.
De qualquer modo, há algumas coisas que machucam e outras com as quais o costume lida, lendo cada frase nunca escrita.
Chega um momento em que não se tem nada, nunca se teve, só uma pequena ilusão [a depender do seu nível de descontentamento], e mesmo consciente disso, deseja-se a volta, o retorno do que se foi.
Eu quero de volta!
Eu quero as cartas que recebia e quero também uma presença aqui ou ali; quero alguma satisfação e um bom momento deitada no sofá sossegada; quero leite e achocolatado batidos no liquidificador; quero alguns amigos de volta, sem cobrança de troco e com novos fios que nos unissem; além disso, quero caminhadas por aí e com um doce no final, mas também quero um dia de chuva com pipoca e abraços quentes e todas as amarguras azedas adocicadas. E pra não faltar, eu quero o choro de volta, quero os laços desatados atados de novo e todo os meus planos pisados despezados.
Quero de volta.
E quero de volta, porque, mesmo acostumada, nunca quero me acostumar.
E porque mutila quando algo se vai de você.

Quando a gente se machuca e é criança, parece que a causa-efeito sempre é mais emocionante.
E aí, desse jeito sem graça, eu me machuco pra não deixar as coisas caírem.
Talvez dependa da escolha dos verbos:
E digo que fui tentar deter um pacote de bolacha recheada de brigadeiro de se suicidar, isto é, de pular do segundo andar do balcão. Mas foi quando ele pulou e levou consigo sua companheira sabor morango.
Rasguei meu braço à toa.
